Texto: Noise D, para o Bocada Forte / Edição de imagem: Vinícius de Almeida

#RapBRASILEIRO

A VOZ DO PERIFÉRICO” é o título do novo trampo do grupo de rap paulista Facção Central. O disco tem 18 faixas e participações de Crônica Mendes, Conflito Crucial, WGI (Consciência Humana), Branco P9, dentre outros, e conta com a produção de DJ Pantera. Confira!

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Texto e Entrevista: Semayat Oliveira, para o Nós, Mulheres da PeriferiaEdição de Imagens: Vinicius Martins

Marcela Nogueira dos Reis, 18, estudante da escola estadual Godofredo Furtado, localizada em Pinheiros (zona oeste da cidade de São Paulo). Desde novembro, ela se tornou também uma das jovens que protagonizaram os atos contra o fechamento das escolas paulistas e, com isso, mudaram o curso de nossa juventude. Marcela parou o trânsito, enfrentou a violência policial, promoveu articulações entre escolas e continua resistindo.

No último sábado (5/12), escolas se uniram para uma manifestação que passou pela Av. Paulista, Consolação, Ipiranga e terminou em frente à Secretaria da Educação, no centro da cidade. A suspensão – anunciada pelo governador Gerando Alckmin na última sexta-feira (4/12) – assim como a revogação, demonstra que a “reorganização educacional” ainda estará em pauta em 2016, o que não satisfaz os estudantes. O grito de guerra diz que “Não tem arrego! A luta só acaba quando a conquista for completa!”.

Presente no ato, Marcela topou conversar com o Nós, mulheres da periferia. Antes mesmo de entrar nessa reivindicação, a estudante já estava envolta à luta pelos direitos das mulheres e aponta como é resistir, diariamente, à desigualdade. “Eu luto exatamente para mudar a minha condição, a condição do meu povo”.

Para ela, que critica a falta de discussões sobre o racismo nas escolas, daqui em diante, os estudantes terão voz para apontar os conteúdos que realmente fazem sentido a eles, já que experimentaram nas ocupações momentos nunca oferecidos anteriormente: troca cultural com comunidades indígenas, aulas sobre memória e até de forró. “Eu queria saber mais sobre a história do meu povo. É uma coisa que eu não ouço na escola e faz falta. É uma forma de alienar as pessoas pra não saberem o que aconteceu e o que ainda acontece”.

Questionada sobre a importância da juventude negra nessa luta, Marcela aponta que a ‘a juventude negra tem que colar’ e que não estamos sozinhos. “Não podemos aceitar a desigualdade que está rolando com a gente. Eu já sofri racismo em loja, em outros lugares e essas coisas que acontecem me dão mais força pra lutar. Eu vejo as desigualdades, vejo a minha mãe trabalhando dia e noite e não tendo condições de pagar uma prova de R$ 130,00 reais pra mim, eu me vejo entrando numa loja e o segurança me seguindo. Essas situações dão mais força mesmo e a juventude negra tem que colar! A gente é forte, a gente consegue! Galera da periferia, mano, vamo! Vamos juntos que a gente não tá sozinho!” 

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Nós, mulheres da periferia – O que te levou a fazer parte dessa luta?

Marcela – Há algum tempo eu venho fazendo parte das manifestações, não só dos estudantes, mas pelos direitos das mulheres e essas coisas. O que me levou a participar das manifestações, dos atos e das reuniões, eu acho que é meio óbvio, é a desigualdade que rola no nosso país e no mundo. E eu não aceito essa desigualdade. Eu sofro essa desigualdade e eu luto exatamente para mudar a minha condição, a condição do meu povo. Então eu não vou ficar quieta, não tem arrego. Pode me prender, pode me bater que eu vou continuar lutando pelo meu povo e pelo direito das pessoas.

Nós, mulheres da periferia – O que você acha que vai mudar daqui pra frente em relação à educação? 

Marcela – Nossa! Eu acho que não vai ser a mesma coisa. “Cara”, os estudantes estão acordando, sabe? Estão percebendo o quanto somos prejudicados e que o governo quer mesmo privatizar a educação. E agora os alunos têm voz. As coisas dentro da escola vão mudar. Os alunos vão escolher o tipo de aula que a gente quer ter, o tipo de aula que a gente realmente aprende e que é importante.

Nós, mulheres da periferia – Que discussão você acha que faz falta na escola hoje?

Marcela – Olha, uma coisa muito legal que aconteceu na ocupação foi a ida dos índios lá pra conversarem com a gente. Esse tipo de aula a gente não teria na escola normal. A gente tem conversado sobre tudo. Nós também tivemos uma aula sobre memória. Sobre memória!(Ela enfatizou com os olhos brilhando). É o tipo de aula que a gente não teria na escola. Tivemos aula de forró, de capoeira. Aulas culturais mesmo e que a gente nunca teve antes e tem sido super legal.

Nós, mulheres da periferia – Você sente falta de discussões sobre a questão racial na escola?

Marcela – Sim! Eu não sei como é nas outras escolas, mas na minha e nas escolas que eu estudei nunca teve esse debate. O que eu vejo nos livros é falando sobre os portugueses, sempre. Eu nunca vi ninguém falando ou estudando sobre a escravidão, por exemplo. Só falam meio por cima.

Nós, mulheres da periferia – Você como uma jovem negra o que você queria aprender na escola?

Marcela – Quando a gente teve a aula dos índios eles disseram que esse negócio de “descobrir o Brasil” é uma mentira e que, na verdade, foi uma invasão. Eu queria estudar mais sobre isso, eu queria aprender mais sobre isso e saber o que realmente aconteceu, sabe? Eu sinto falta! Eu queria saber mais sobre a história do meu povo. É uma coisa que eu não ouço na escola e faz falta. É uma forma de alienar as pessoas pra não saberem o que aconteceu e o que ainda acontece. Agora a galera que está começando a reagir mesmo.

Nós, mulheres da periferia – Você tinha ideia da força que vocês têm?

Marcela – Não! Eu achei que a gente ia sair, apanhando, no primeiro dia. E ai a luta foi crescendo, crescendo e tá sendo incrível! Tá sendo emocionante! A galera chora, chora mesmo nos atos e é de emoção, de felicidade. Porque é uma luta linda. Você ver uma senhora de idade descendo do ônibus pra apoiar é lindo! A galera fica emocionada. Eu me emociono toda vez que eu falo (os olhos dela marejaram nessa hora) e é mais lindo ainda quando a família apoia, né? A minha mãe tem medo, mas ela me apoia. Minha tia me apoia também. Tá lindo, tá incrível. É uma revolução que estamos fazendo e ninguém esperava.

Nós, mulheres da periferia – E na sua visão, qual é a importância das escolas da periferia nessa articulação?

Marcela – Minha escola fica em Pinheiros, mas a escola da periferia estar aqui é incrível. No começo nós ficamos preocupados, por que algumas escolas foram invadidas e os alunos foram retirados. Mas a periferia tem uma força e estão sendo o máximo! E é muito importante porque é o que eles não querem: ver a periferia no centro. Eles querem privatizar mesmo. E as escolas da periferia são as que realmente têm que lutar, tem que estar aqui mesmo!

Nós, mulheres da periferia – O que você espera para o ano que vem?

Marcela – Eu estou no 3º ano. Ano que vem não estarei mais na escola, mas pra galera que ainda estará eu desejo muita força. Não será mais a mesma coisa, vai ter muita mobilização dos alunos. Agora a gente luta não só contra o fechamento das escolas, é por uma educação melhor.

(Antes da entrevista, Marcela parecia receosa em falar. Por isso a pergunta abaixo)

Nós, mulheres da periferia – E do que você está sentindo medo?
Marcela – Eu to com medo por que os policiais ficam me gravando pela câmera do celular deles, tinha um cara que trabalha em uma delegacia comentando minhas coisas no Facebook e eu tive que bloquear. Algumas pessoas estão me dizendo pra tomar cuidado e eu já não ando sozinha na rua. Eu tenho medo de acontecer alguma coisa comigo. Eu sou pobre, sou mulher, sou negra. Então, é como se tudo estivesse contra mim.

Nós, mulheres da periferia – O que você acha da postura da polícia?

Marcela – É ridícula! Por que vem um exército de polícias contra alunos que não oferecem perigo nenhum contra a sociedade? É o contrário! Os policiais falaram: “vocês são um perigo pra sociedade!” Como assim? Acho que a minha única arma é a caneta. Eles partem pra cima mesmo, não estão nem ai. Eu só fico me perguntando como eles conseguem dormir à noite depois de bater em criança.

Nós, mulheres da periferia – A sua consciência política mudou nos últimos dias?

Marcela – Mudou muito! Eu sabia que política era difícil, mas é muito mais do que eu pensava. É muito complicado. Esse negócio de partido, de organização. É muito complicado. Mas nas escolas não rolou isso de “organização”, pelo menos nas ocupações que não foram invadidas por alguma organização. São só os estudantes lutando pela educação. E essa independência é importante porque, de alguma maneira, essas instituições podem influenciar. E não é o que a gente quer, queremos um debate com os alunos, ver a opinião dos alunos e a gente tomar uma decisão sobre o que fazer.

Nós, mulheres da periferia – Hoje vimos poucos jovens negros e negras nessa manifestação. O que você diria pra essa juventude?

Marcela –  Não podemos aceitar a desigualdade que está rolando com a gente. Eu já sofri racismo em loja, em outros lugares e essas coisas que acontecem me dão mais força pra lutar. Eu vejo as desigualdades, vejo a minha mãe trabalhando dia e noite e não tendo condições de pagar uma prova de R$ 130,00 reais pra mim, eu me vejo entrando numa loja e o segurança me seguindo. Essas situações dão mais força mesmo e a juventude negra tem que colar! A gente é forte, a gente consegue! Galera da periferia, mano, vamo! Vamos juntos que a gente não ta sozinho!

Texto: Thiago Borges, para Periferia em MovimentoFoto: Thiago Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Araújo

Encurralados, exterminados, silenciados e com inquéritos arquivados. Apesar da ditadura militar ter acabado há 30 anos, a violência estatal segue firme na democracia brasileira. Haja visto o recorde de mortes praticadas pela Polícia Militar de São Paulo em 2014, com 801 vítimas no estado – alta de mais de 80% em comparação ao ano anterior, segundo a Ouvidoria da PM.

“A democraria por uma lado nega direitos sociais e, por outro, coloca seu braço armado para reprimir. Saúde, educação e lazer não tem. Porém, não falta coturno, farda limpa, viatura nova, armamento e bala”, diz o professor e militante Douglas Belchior, da UneAFRO.

Um passo importante para visibilizar e conter esse massacre foi dado no dia 20 de fevereiro, quando entidades da sociedade civil instalaram na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) a Comissão da Verdade da Democracia Mães de Maio.

Nos mesmos moldes da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que apurou casos de tortura, mortes e desaparecimentos forçados pelo Estado durante a ditadura militar, o grupo pretende examinar e esclarecer violações de direitos humanos praticadas por agentes estatais após a redemocratização do País em 1985.

“Eles vêm matando desde a ditadura, hoje estão aposentados, mas a ditadura não acabou. O Brasil fabrica 50 mil mães de maio por ano. Somos pobres, pretos, periféricos, não criminosos”, diz Debora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que dá nome à Comissão.

Natural do município de São Vicente (SP), Debora perdeu o filho um dia após o dia das mães de 2006. Com 29 anos na época, o gari negro Edson Rogério da Silva desapareceu após ser abordado por policiais militares (PM) da Baixada Santista enquanto abastecia a motocicleta em um posto de combustível. Dias depois, o corpo de Edson foi encontrado jogado em uma vala. Registrada como “resistência seguida de morte”, a versão oficial é de que ele confrontou a PM.

Os chamados “Crimes de Maio de 2006” resultaram em pelo menos 493 mortos pela PM paulista em represália aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). Mas os casos de vítimas não reconhecidos pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado de São Paulo passam de 100, e cerca de 30 pessoas continuariam desaparecidas.

“Sabemos que nossos filhos morreram e não voltam mais, mas precisamos de uma resposta do Estado. Os assassinos de nossos filhos têm nome, sobrenome e profissão. Eles não são invisíveis”, ressalta Débora.

Além dos Crimes de Maio, o grupo vai examinar casos como o massacre do Carandiru (1992); o massacre de moradores de rua na Praça da Sé, em 2004; os crimes praticados no final de 2012 e início de 2013 nas periferias paulistanas, incluindo a chacina do Jardim Rosana; entre outros.

Outra comissão foi criada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e, a princípio, as investigações devem se restringir aos dois estados.

“Estamos criando esta comissão e vamos lutar para criar uma nacional, com força de lei, como a Comissão Nacional da Verdade”, aponta Rafael Schincariol, coordenador-geral da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Herança da ditadura

Dois analistas da Comissão de Anistia, José de Jesus Filho e Maria Pia Guerra, trabalham para obter dados sobre esses casos. Entre outros levantamentos, está prevista a execução de uma pesquisa sobre a violência policial como herança da ditadura.

“Na Constituição de 1988, as vozes da segurança pública não foram ouvidas e essa estrutura permanece praticamente inalterada. A repressão que existia contra militantes políticos se voltou à população pobre”, explica Maria Pia Guerra.

Para Dario de Negreiros, membro da Comissão da Anistia, a instalação desse grupo fortalece inclusive a apuração dos crimes da ditadura. “Isso porque o acontecimento mais importante da história presente brasileira é o massacre da população preta, pobre e periférica”, destaca Negreiros,

Debora, das Mães de Maio, lembra que o grupo trabalha pela memória, verdade, justiça e reparação desses crimes. “Estamos aqui para mostrar que nossos mortos têm voz”, conclui.

Com informações da Agência Brasil

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