Funkeiro do Rio de Janeiro é responsável por uma das músicas de mais sucesso em atos e manifestações, “Quilombo, Favela e Rua”. O artista e ativista criou uma campanha de financiamento coletivo para produzir o clip da música.

Texto e fotos / Pedro Borges

Alexandre Ferreira, 39 anos, nascido e criado em Irajá, Zona Norte do Rio de Janeiro, funkeiro e conhecido pelo apelido de Mano Teko, é o responsável pela música “Quilombo, Favela e Rua”, faixa que ganhará em breve um clip, a ser gravado com o recurso de uma campanha de financiamento coletivo.

Um dos criadores do popular lema, “nós por nós”, Teko tem uma mania: pensar, agir e comemorar as conquistas de maneira coletiva. Exemplo desse costume e postura ocorreu durante a programação do Encontro de Literatura Divergente, realizado na cidade de São Paulo, quando um jovem, que disse ter ouvido sua canção em um ato, perguntou se era ele “O Teko do ‘nós por nós’. A resposta foi clara e objetiva, “Sou o Teko e o ‘nós por nós’ somos nós”.

Faixa para textos BAP

Quem é o Mano Teko?

Ao som de Gonzaguinha, Alcione, Martinho da Vila e Michael Jackson, referencias musicais dos pais, Alexandre, logo aos 13 anos de idade, começou a escrever seus primeiros funks e dar início a sua carreira artística. Tímido, usou da música para expressar suas ideias e aquilo que presenciava no cotidiano, como os festivais e bailes da época.

As letras, compartilhadas apenas com as folhas de um caderno, que se dividia entre as músicas e as anotações do colégio, foram descobertas por um colega de classe, que também escrevia funk em parceria de um amigo, conhecido como MC Borracha.

A proposta de montar um trio, aceita sem titubear por Teko, gerou o grupo “Trio Funk Rap”. Foi com essa formação que o funkeiro fez a sua primeira apresentação oficial. “Eu tímido, fiquei igual a uma estátua e pronunciava ali os primeiros versos no microfone. O trio não avançou, se desfez pouco tempo depois”, recorda.

Mesmo sem o trio, um Festival na zona oeste do Rio de Janeiro motivou a criação de uma dupla que faria sucesso na capital fluminense, Teko & Buzunga. “Cada etapa do Festival tinha uma premiação em dinheiro e a gente dependia de avançar entre os primeiros colocados para garantir a nossa passagem para o baile seguinte”, descreve Teko, que também lembra ter vencido um festival com o amigo e despertado o interesse de um empresário do ramo.

A dupla foi responsável pela música “Rap da Consciência”, que projetou Buzunga e Teko no movimento funk. Com ela, em pouco tempo, começaram a vender LP’s, a música passou a tocar nas principais rádios, e os convites para os bailes se tornaram mais frequentes.

“Em um momento a gente estava pagando pra curtir o baile, no outro estava sendo pago para fazer o que mais gostava. Em comparação a outros, acho até que foi rápido. Em 1 ano mais ou menos as coisas virarem a favor depois de formada a dupla, que teve outras músicas bem executadas, o que reforçou nosso nome na história do movimento”, afirma Teko.

A dupla teve seu fim no ano 2000, quando Buzunga optou por se tornar evangélico e seguir a carreira de pastor. O fim da parceria esfriou a carreira, que passou a ser intercalada com o trabalho na produtora que o gerenciava, e numa fábrica de pneu, quando fazia o turno das 0h às 8h.

O reconhecimento e o pedido dos companheiros de trabalho de retornar aos palcos e à carreira de funkeiro fez Teko voltar a compor. O retorno à escrita coincidiu com o encontro do DJ Jorginho Matarazzo, quem é até hoje seu produtor, e foi fundamental para a reinserção de Teko no funk.

Nessa época, ele e outros nomes da música decidiram criar a associação Apafunk, que tinha o objetivo de levar informação aos profissionais da área. Foi neste momento que ele disse ter conhecido os movimentos sociais, e o poeta Nelson Maca, da Bahia, quem apresentou para o jovem a importância do debate sobre as questões raciais no país.

Sarau Divergente Corpo

Sarau Divergente comemorando os 4 anos de existência (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Essas trocas e diálogos motivaram Teko a construir o Sarau Divergente, que completou em 2016, 4 anos de fundação. O espaço, momento importante de troca para a comunidade sobre o movimento negro e as questões raciais, foi quem cantou e ouviu pela primeira vez a letra, “Quilombo, Favela e Rua”, sucesso em atos e protestos e uma espécie de hino na luta contra o genocídio do povo negro no Brasil.

“Não é mais o Teko, são as mães vítimas do Estado, são alunos ocupando uma reitoria, é a Marcha contra o Genocídio na Bahia, são as mulheres de Manguinhos ao Complexo do Alemão. É a ‘menorzada’ da ocupação cantando durante as oficinas, nos encerramento de debates, áudios soltos pelos grupos de whattsapp. Foi muita coisa e de uma intensidade que não dá pra descrever”, explica Teko.

O clip

A música, já popular nas periferias e nos movimentos sociais, faz o clip ter uma grande responsabilidade. Com o objetivo de alcançar o maior número de pessoas, com a melhor qualidade possível, Teko sonha em potencializar a mensagem de sua letra, direcionada ao povo negro e periférico.

Um dos maiores defensores da ideia de “nós por nós” e da força da comunidade negra e periférica, Teko decidiu construir uma campanha de financiamento coletivo para contar com o apoio das favelas e dos movimentos sociais para construir o material com qualidade.

Quilombo, Favela e Rua é o pontapé inicial para Mano Teko retomar os olhares para o Sarau Divergente e trabalhar na produção de mais músicas. “Não vejo mais minha arte de uma outra forma, que não seja com essa proposta de mudança real, com o protagonismo preto!”.

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